Efeito Copa do Mundo? Como o esporte é uma disputa de protagonistas para a GenZ

Danillo Lima
Trope-se · 17 de agosto de 2026

A Copa do Mundo 2026, fenômeno cultural global que dispensa apresentações, apontou uma tendência geracional que se confirma no Brasil. Chamada de "Copa dos Protagonistas", visto que aqueles que são as grandes estrelas de fato confirmaram as expectativas e brilharam no torneio, o evento mostra que as atenções estão naqueles que constroem narrativas individuais que são identificáveis.
A Geração Z sempre teve facilidade para organizar afetos em torno de ídolos da cultura pop. O mesmo comportamento de fã se transfere para o mundo do futebol ou outros esportes. O melhor exemplo recente é o efeito Endrick durante a Copa do Mundo. Endrick já não era exatamente um desconhecido: passou pelo Palmeiras, seguiu para a Europa, primeiro no Real Madrid, depois para o Lyon, sempre com moderada visibilidade para o público fora da bolha futebolística. Mas foi vestindo a camisa da seleção brasileira, na Copa, que ele estourou de verdade. Entrou na conversa de milhões de torcedores, uma espécie de possível salvador da campanha rumo ao hexa. Com apenas 19 anos, o jogador carregou esse peso simbólico geracional.
A repercussão foi tanta que virou meme. O público começou a brincar com o fato de que o técnico Carlo Ancelotti não colocava Endrick em campo, como se houvesse algum tipo de disputa pessoal. Exagero, claro. Endrick acabou entrando nos jogos mais decisivos. Mas o episódio mostra bem como a torcida hoje não fica só assistindo: ela narra, especula, cria enredo em tempo real, e o atleta vira personagem de uma história que a própria torcida ajuda a escrever.
Tem uma camada ainda mais rica nessa história, que é a vida pessoal de Endrick com a influenciadora Gabriely Miranda. O relacionamento dos dois já rendeu especulações sobre a relação de Gabriely com a família de Endrick, assunto que volta e meia reaparece. Eles se casaram em 2024, anunciaram a primeira gravidez em 2026, revelaram que esperam um menino e escolheram o nome Kendrick para o bebê. Cada uma dessas etapas virou conteúdo, virou conversa, virou acontecimento acompanhado por um público que não está necessariamente interessado em futebol, mas sim na história construída.
É justamente essa narrativa que deve ser aprofundada para quem se interessa pelo comportamento das novas gerações. A construção de imagem do casal como uma novela, mas também como um espelho para a GenZ. Endrick e Gabriely, ambos GenZ mais novos, estão constituindo família cedo, com estabilidade e planos claros. Isso fala diretamente com uma parte da GenZ que também deseja isso, mesmo que o estereótipo dominante sobre essa geração costume ser outro, associado a adiamento e indefinição. Mesmo que a GenZ não alcance esses marcos da vida na mesma idade que o atleta e a influenciadora, serve como uma inspiração a vida que eles apresentam.
Endrick então vira referência de trajetória. Um protagonista da vida real. Gabriely, do lado dela, ocupa o papel de WAG (sigla de wives and girlfriends, esposas e namoradas, por vezes usada de forma caricatural para designar companheiras de atletas) e se torna espelho para jovens mulheres que acompanham não só o relacionamento, mas o estilo de vida, as escolhas, a forma como ela constrói presença digital e consumo.
Então, a GenZ que é múltipla e também carente de espelhos de trajetórias de vida se organiza em torno de diversos ídolos da cultura pop, sobretudo no futebol. Como a Copa demonstrou, mais do que seleções como entidade abstrata, é importante para o consumo a narrativa de protagonistas individuais. Quando esse protagonista pertence à própria GenZ, a identificação fica ainda mais natural, pois vira reconhecimento. Pra quem observa comportamento de consumo, entender um fandom sobre a narrativa do indivíduo é entender por onde a atenção e a decisão de compra circulam agora.

