Entre o unfollow e o axé: Anitta e a relação da GenZ com religiões africanas

Vitória Marques
Trope-se · 11 de agosto de 2026

André Nicolau/Divulgação
EQUILIBRIVM II expõe uma contradição brasileira — consumimos os ritmos, as palavras e a estética das culturas de terreiro, mas reagimos quando a origem religiosa é nomeada
Anitta perdeu 100 mil seguidores na semana em que apresentou "Meia Noite" no Domingão com Huck. Uma semana depois, tinha recuperado o dobro. Esse movimento — primeiro a rejeição, depois a curiosidade e a aproximação — diz muito sobre a relação do Brasil com as religiões de matriz africana. E diz também alguma coisa importante sobre a GenZ.
EQUILIBRIVM II, lançado em julho com um curta-metragem de 35 minutos disponível no YouTube e no Globoplay, é um trabalho atravessado por espiritualidade, brasilidade e ancestralidade. Um projeto em que Anitta fala abertamente sobre sua fé, nomeia orixás e convida artistas e grupos ligados às tradições de terreiro — entre eles o Grupo Ofá, coletivo ligado ao Terreiro do Gantois, e MC Tha, que já falou publicamente sobre sua relação com a Umbanda. Não é estética. É vivência religiosa colocada no centro do pop. E é exatamente aí que as coisas ficam interessantes.
O Brasil consome elementos das culturas de terreiro o tempo inteiro. Consumimos palavras como axé. Cantamos músicas atravessadas por ritmos de matriz africana. Comemos acarajé. Vestimos branco no Réveillon. O desconforto aparece quando a origem de tudo isso deixa de ser invisível. Uma coisa é consumir o tambor como brasilidade. Outra é reconhecer que aquele tambor também fala com o sagrado.
EQUILIBRIVM faz exatamente esse movimento — e parte do público reagiu com o unfollow. Mas a outra parte chegou justamente por isso.
A GenZ está deixando a religião — ou as instituições?
Existe uma leitura rápida sobre juventude e religião: a GenZ seria simplesmente menos religiosa. Os dados mostram algo mais complexo. No Censo 2022, a faixa entre 20 e 24 anos apresentou o maior percentual de pessoas sem religião no Brasil: 14,3%. Entre 25 e 29 anos, 13,5%. No conjunto da população, eram 9,3%. Mas estar sem religião não significa estar sem fé.
Parte da juventude está menos disposta a permanecer em instituições que considera rígidas ou incompatíveis com sua identidade — especialmente em temas como diversidade, saúde mental, autonomia e liberdade. O resultado não é necessariamente uma geração descrente. Pode ser uma geração que deseja construir uma relação mais consciente com aquilo em que acredita.
E é nesse contexto que os dados sobre religiões afro-brasileiras chamam atenção. A categoria formada por Umbanda, Candomblé e outras religiões afro-brasileiras passou de 0,3% da população em 2010 para 1% em 2022. Entre pessoas de 20 a 24 anos, esse grupo representava 1,3%. Entre 25 e 29 anos, 1,4% — o maior percentual entre todas as faixas etárias. A proporção diminui gradualmente entre grupos mais velhos. Jovens e jovens adultos aparecem com maior presença proporcional nessas religiões do que pessoas mais velhas.
Parte desse crescimento pode estar relacionada à maior disposição para declarar uma religião que durante muito tempo precisou ser escondida por medo de perseguição e discriminação. Mas o sinal geracional existe — e merece atenção.
O que a visibilidade faz
Antes de alguém entrar em um terreiro, essa pessoa precisa conseguir imaginar que aquele lugar também pode recebê-la. Representação ajuda a construir essa possibilidade. Quando uma artista com o alcance de Anitta fala abertamente sobre Candomblé, ela não está apenas contando algo sobre si. Ela está deslocando o lugar que essa religião ocupa no imaginário popular. Mostrando uma dimensão que contrasta com a forma violenta e demonizada pela qual o Candomblé foi representado durante tanto tempo.
EQUILIBRIVM II não resolve o racismo religioso. Não representa sozinho toda a complexidade do Candomblé. Mas amplia uma imagem que durante muito tempo tentaram esconder.
Entre o unfollow e o axé, Anitta escolheu o axé. Para muitas pessoas jovens, talvez seja justamente essa escolha que torne possível se aproximar — e deixar de ter medo.
