Adolescente é um conceito que está entrando em extinção?

Danillo Lima
Trope-se · 17 de agosto de 2026

Um dado do InstitutoZ resume bem o clima da geração Z em relação a crescer: 76% dizem sentir que a vida adulta mudou para a sua geração em comparação com as anteriores. Essa mudança parece ser exatamente um alívio ou esperança. O Edelman Trust Barometer de 2025, que estudou jovens do mundo inteiro, demonstrou que 64% das pessoas não acreditam em um futuro melhor para a próxima geração. Talvez nunca tenha sido tão difícil ser adulto quanto agora, num momento em que emprego, moradia, relacionamento e futuro parecem pilares difíceis de acompanhar, sobretudo para as novas gerações.
Esses dados ajudam a entender uma mudança ainda mais profunda, que é como os próprios conceitos de adolescência e vida adulta se transformaram ao longo do tempo. Os millennials cresceram com uma adolescência bem definida, quase caricatural: a TV, o cinema, a música pop, tudo isso construiu marcos culturais compartilhados. No Brasil, isso foi a novela Malhação, a série Friends, os filmes da saga Harry Potter, ouvir Charlie Brown Jr. e por aí vai. Era possível apontar, com razoável precisão, o que era "coisa de adolescente" e o que era "coisa de adulto".
Já para a Geração Z, as coisas são mais complexas. Ao crescer com a internet fragmentando tudo, ainda mais após os algoritmos, parece que o repertório coletivo já não estava mais tão nítido. Olhando para a GenZ mais nova, que hoje está na faixa dos 17 aos 21 anos, essa fragmentação foi ainda mais intensa, visto que passaram pela consolidação do TikTok, Discord, Netflix, Spotify etc. Se isso já complica a formação de uma identidade geracional única, imagina o que está reservado para a geração Alpha, que sequer conheceu um mundo sem feed personalizado.
Essa mudança fica perceptível nos padrões de consumo que pararam de obedecer fronteiras etárias claras. Um show de K-pop hoje reúne, na mesma pista premium, gerações Alpha, Z mais nova e mais velha. No chat de um jogo da Kings League tem uma criança e um universitário. Um lanche de fast food é a recompensa de alguém que acabou de sair de uma prova de matemática e o comfort food do jovem adulto depois de um dia difícil no trabalho. As experiências se cruzam porque as etapas da vida também estão em crise.
Isso devolve uma pergunta incômoda para as marcas: será que sua marca ainda entende jovens do jeito que se entendia nos anos 2000? Segmentações rígidas por idade parecem não dar conta da complexidade. É necessário contemplar a cultura para aprofundar as diferentes formas de consumo de um mesmo produto.
Entender essa nova vida adulta fragmentada, por vezes pessimista, é um convite para repensar comunicação, produto e experiência para um público que não cabe mais em faixa etária fechada. Falar em "adolescente" como se falava há 20 anos parece um erro histórico. Não se tem a mesma divisão de antes, logo esse conceito pode ser obsoleto.

