GenZ transforma livros em comunidade dentro e fora da internet

Mariana Lopes
Consultora · Trope-se · 11 de agosto de 2026

Vocês já repararam que parece que todo mundo está procurando um hobby?
Tem gente correndo, fazendo cerâmica, bordando, jogando beach tennis… Mas tem um "antigo novo hábito" que começou a chamar muito a minha atenção, talvez porque eu seja completamente suspeita para falar, a leitura.
Eu amo ler. E, de um tempo para cá, comecei a perceber que os livros estão aparecendo em lugares diferentes.
Estão no TikTok, nas cafeterias, nos encontros em livrarias, nos clubes de leitura e, principalmente, nas conversas. Naquela mensagem clássica: "Você já chegou naquela parte?"
E a fofoca literária está movimentada.
No primeiro semestre de 2025, as publicações brasileiras com as hashtags #BookTok e #BookTokBrasil cresceram 39%. Foram mais de 6 bilhões de visualizações e uma média de 12 mil novos vídeos por semana.
Ou seja, muita gente não está escolhendo o próximo livro por causa de uma lista de clássicos obrigatórios.
Está escolhendo porque viu alguém dizer: "Esse livro acabou comigo. Você precisa ler."
E, sinceramente? Eu entendo. Porque uma boa recomendação, contada com emoção, dá vontade de comprar o livro só para entender o motivo de todo aquele surto. E essa conversa também chegou ao consumo.
Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, realizada pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, 18% dos brasileiros adultos compraram pelo menos um livro em 2025. Em 2024, eram 16%.
É uma parcela ainda pequena da população, então não dá para dizer que todo mundo passou a comprar ou ler livros. Mas o crescimento é real. Na prática, foram cerca de 3 milhões de novos compradores em apenas um ano.
E tem outro dado que deixa essa história ainda mais interessante: o maior avanço aconteceu entre pessoas de 18 a 34 anos, faixa em que a proporção de compradores cresceu 3,4 pontos percentuais, acima da média geral.
Agora, sim, temos uma pista mais concreta de que os jovens estão ajudando a movimentar esse mercado.
Mas o que mais me interessa não é só o aumento das compras. É perceber o que está sendo criado em volta dos livros. Tem recomendação, troca, identificação, encontro e pertencimento. Estamos vendo leitores que não querem apenas terminar uma história e guardar o livro na estante.
Eles querem comentar, indicar, postar, ouvir outras opiniões e descobrir se mais alguém também ficou com raiva daquela personagem.
O livro começa a fazer parte da identidade. É aí que o BookTok fica ainda mais interessante.
Você descobre um livro em um vídeo, salva a indicação, lê os comentários, manda para alguém e, quando percebe, já está dentro de uma comunidade formada por pessoas que gostam das mesmas histórias.
E essa conversa não fica só na internet. As livrarias também ganharam participação como canal de venda, mostrando que o digital não está necessariamente afastando as pessoas dos espaços físicos.
Um livro pode ser descoberto no TikTok, virar assunto em um grupo e terminar em uma visita à livraria, em um café ou em um clube de leitura.
Um formato que traduz muito bem esse desejo de encontro é o Silent Book Club. Cada pessoa leva o próprio livro, todos se reúnem e leem juntos, sem a obrigação de discutir a mesma obra. É praticamente um rolê para quem quer socializar, mas nem tanto. Genial, inclusive.
Ainda não temos um levantamento nacional capaz de mostrar o tamanho desse formato no Brasil. Mas ele funciona como um bom exemplo de uma mudança maior: a leitura continua sendo individual, mas a experiência ao redor dela está ficando cada vez mais coletiva.
É você, o livro e a sua cabeça criando um mundo inteiro. Mas agora existe uma comunidade em volta disso. O livro circula entre o digital e o presencial. E eu acho bonito perceber que uma geração tão conectada está usando a tecnologia para encontrar pessoas com quem dividir uma coisa tão antiga quanto a leitura.
Porque ler é muito bom. Mas ler e ter com quem trocar teorias, sentimentos e surtos sobre personagens fictícios é ainda melhor. No fim, talvez a verdadeira fofoca seja esta: A geração mais digital não está apenas descobrindo livros na internet. Está usando os livros para criar comunidade dentro e fora dela.
